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Pit Bull: verdades e mentiras

Por Cesar Pimenta - 1999
ccpimenta@bridge.com.br
criador da raça Pit Bull, proprietário do canil Rising Force Kennel do Rio de Janeiro


Não sou pessimista e, por razões de ofício, sou compelido a ser patriota e a acreditar neste país incondicionalmente desde os quinze anos de idade. Mas, a cada dia que passa, dou mais e mais razão a este espírito iluminado chamado Luiz Fernando Veríssimo, que diariamente nos brinda no JB com sua coluna. Durante a campanha eleitoral, ele bateu firmemente na tecla de que estamos perdendo o senso crítico, usando sua metáfora do pensamento único.

Acredita-se piamente no que é divulgado na mídia, sem a menor reflexão, o que me preocupa sobremaneira. Reconheço que permitir ou não a criação de determinada raça de cachorro é um assunto totalmente irrelevante para o país. Só interessa a dois grupos de pessoas: as que gostam do cão, por terem contato com ele, e as que o odeiam, ou por terem sido mordidas (uma minoria), ou porque estão seduzidas pela mídia. Somados e divididos pelo total da população, chegaremos a um percentual irrisório.

O que me preocupa é justamente isto: se é irrelevante e é dado o destaque que vemos nos últimos tempos, passamos por um processo de banalização das questões nacionais extremamente danoso à democracia. Poucos poderão me dizer o que está acontecendo no plano econômico, com um impacto enorme em nossas vidas, mas todos poderão me descrever as matérias publicadas recentemente nos jornais ou na televisão sobre o pit bull.

Agora vamos aos fatos. O pit bull vem sendo amaldiçoado em dois fronts. É chamado genericamente de assassino, mas podemos qualificá-lo como assassino de duas formas:

1. O pit bull é assassino de pessoas
2. O pit bull é assassino de outros cães e é utilizado em rinhas.

Em cima disso, toda sorte de argumentos ridículos são utilizados, muitos dos quais importados sem o menor senso crítico. Vejamos apenas os mais ridículos:

- O pit bull tem uma MORDEDURA DE 3 TONELADAS. O que é isto? Força, pressão, potência? Tonelada é uma medida de massa. Se for pressão, deve ser força - em newtons ou kilogramas-força - por área, ou seja alguma coisa como metro, polegada etc ao quadrado.
Tem um site, que agrupa um dos maiores números de bobagens por página já vistos, que fala em não sei quantas toneladas por centímetro cúbico. Salvo melhor juízo, isto é densidade. A boca deste cachorro é feita de que? Urânio? Kriptonita?

A realidade: o Dr. I Lehr Brisbin da University of Georgia informa, "Ao que se saiba, não existe nenhum estudo científico publicado que permita que alguma comparação seja feita em termos de potência de mordedura entre as diversas raças. No entanto, existem diversas razões técnicas para que se afirme que é impossível coletar dados que descrevam a mordedura em termos de libras por polegada quadrada de uma forma significativa. Todos os números descrevendo a potência da mordedura nestes termos podem ser relacionados a rumores infundados ou, em alguns casos, artigos de jornais sem fundamento em dados factuais.".

Por favor, recorram ao bom senso. Esses cachorros são utilizados sistematicamente em rinhas. Uma das partes mais atingidas são as pernas. Se a pata desses animais suportasse uma potência, força, pressão ou o que seja de "três toneladas" sem ser esmigalhada, a Toyota estaria fazendo manga de eixo de tíbia de pit bull.

- O pit bull é assassino e deve ser eliminado. Voltemos às rinhas. Alguém que fala isto já viu um vídeo de rinha? Passaram vários na TV ultimamente. Se viu, deve ter notado que ficam quatro sujeitos com a cara literalmente grudada nos cães brigando. E que de vez em quando, les metem a mão nos cachorros para separá-los. Se este manuseio ocorre claramente durante o pico de excitação e agressividade do animal, responda-me: este cachorro pode ser mordedor de gente?

É preciso que fique bem claro o seguinte: agressividade GRATUITA em relação a seres humanos é inadmissível num pit bull; os exemplares que apresentam este tipo de comportamento DEVEM SER SACRIFICADOS.

Mas o pit bull é um cachorro; não é um tigre nem uma galinha. Ele defende seu território e é naturalmente protetor em relação ao dono. Diversos treinadores, ente eles a Cláudia Pizzolatto, não recomendam treinamento de "protection" com este cão. Eu concordo em parte: só deve ser feito se o dono tiver uma razão muito forte para isso e com um profissional selecionado a dedo. No Rio, só confio em três para isso.

É próprio do temperamento de um cão de combate (combate não é rinha: aí entram mastins, cães de caça pesada etc. - ver www.rfk.eti.br) ser extremamente ligado ao dono. Como ocorre COM QUALQUER CÃO, agressividade estimulada = agressividade assimilada.

Aproveitando este tópico, voltemos à questão do "assassino".

1. Assassino de gente

Esta questão é muito simples: onde estão as estatísticas confiáveis? Alguém pode me informar quantas pessoas os pit bulls já mataram no Brasil nos últimos 10 anos? E não me venham com o caso de Cotia: foi amplamente documentado que se tratava de um filhote de quatro meses. Ah, teve o Saddam, de Copacabana. Minha opinião: mordeu pouco. Diversas testemunhas, inclusive um cliente meu, relataram que o cão foi espancado, primeiro a chutes, pela menina de 15 anos que o conduzia, depois a golpes de skate, pelos amigos dela. Tudo porque, não sendo adestrado, puxava demais a guia. O maior estrago que ele fez foi na perna de um garoto. A mãe do menino nem caso criou, apenas exigiu o pagamento das despesas médicas, pois seus pastores alemães já morderam seriamente DIVERSAS pessoas.

Isto pode parecer preconceito também, mas os donos podem responder melhor do que eu: o que ocorre com um estranho que enche de porrada um fila/doberman/rottweiler/pastor/cocker/poodle? O que ocorreu nos Estados Unidos nos anos 80 já está ocorrendo aqui: qualquer cachorro que morde é pit bull.

O DPO de Camboinhas, Niterói, já recebeu um caso assim: ao dar queixa, uma mulher disse que tinha sido mordida por um cão que, pela agressividade, só poderia ser um pit bull. O cão era um boxer. Mas ele morde? Claro que morde! É um C A C H O R R O!

Mas vocês leram a reportagem da Veja ha poucas semanas atrás? ALGUNS lutadores de jiu-jitsu - é injusto generalizar - afirmam categoricamente que espancam até o desfalecimento pessoas que cruzam seus caminhos. Como professores que lhes chamam a atenção, por exemplo. Ou apenas os olham. E estam MATANDO gente em Ipanema. A culpa é do cachorro? Esses são os cães que criam problemas. O que o poder público faz com essas PESSOAS, que dão entrevistas, tiram fotos e confessam crimes de lesão corporal, homicídio (e várias tentativas de) abertamente? Alguém em sua sã consciência acha que algo será feito com o cachorro?

2. Assassino de outro cachorro e utilizado em rinhas

É. Não confio em deixar um pit bull sozinho com outro cão, mesmo que criado junto desde pequeno. Mas existem diversas linhagens que são quase uma raça dentro da outra e se adaptam bem. Tenho inúmeros exemplos de pits convivendo com cães que vão de poodles a rottweilers. Não se deve nem tentar é deixar junto um cão selecionado para luta - e, pasmem, não existe um só criador no Brasil que faça isto. Felizmente para os cães, aqui o dinheiro sempre fala mais alto.

Isso faz do pit bull uma besta que mereça ser destruída? Absolutamente não. Primeiro porque existe uma grande distância entre um cão selecionado para combate - uma decisão do criador - e um cão de rinha - uma decisão do dono. Cães selecionados assim das linhagens tradicionais americanas são extremamente dóceis e cinologicamente corretos. Se dão melhor em competições e têm temperamento muito estável, pois foram feitos para suportar o insuportável, que é a pressão psicológica de uma rinha.

Têm apenas um potencial muito maior de serem agressivos em relação a outros cães - mas isso se corrige com treinamento. Como exemplo, temos o pit bull Dragon, de propriedade de um treinador do RJ. Descende da linhagem mais respeitada de rinha dos USA (Patrick Bolio) e compete em obediência, agility e CG sem guia no meio dos outros cães. Estes cães não têm absolutamente nada a ver com os cães que estão aterrorizando a população na mão dos baderneiros.


Deixemos agora a hipocrisia de lado. O pit bull é agressivo e tenderá a brigar com outros cães, é verdade. Mas cabe ao dono deixá-lo brigar ou não. Não nos esqueçamos que o cão é um carnívoro predador. Sua agressividade passou por um processo seletivo e é direcionada para diversos focos, inclusive gente, no caso dos cães de guarda. Alguém já tentou criar um pointer junto com uma codorna? Um jack russell junto com um porquinho da índia? Um poodle standard junto com uma galinha? Esses cães são assassinos?

O pit bull tirou sua pujança física e agressividade em grande parte dos pequenos terriers, como o fox, o jack russell, o patterdale e outros. Este sangue foi introduzido no bulldog inglês (nada a ver com o atual bulldoguinho de exposição) para reduzir seu tamanho e torná-lo mais ágil. As rinhas eram legais. Estavam de acordo com a sociedade britânica da época: pobreza, violência, crianças trabalhando em fábricas, mulheres sem direitos etc. A mesma sociedade que criou o pit bull criou o whippet, quando as coisas melhoraram.

Na década de 40, as rinhas ainda eram programa de fim de semana, anunciadas nos clubes. Esse tempo passou. As rinhas existem, mas são crime inafiançável. Porque uma lei proibindo o cão? Existe alguma proibindo fábricas de kimono ou abertura de academias? A esmagadora maioria dos criadores busca potencializar as características atléticas do cão e ao mesmo tempo reduzir sua agressividade em relação a outros cães. Uma lei proibindo a criação vai acabar com ESTE pit bull. Não vai acabar com as rinhas. Elas ocorrem em lugares muito reservados - ora bolas, são crime, não são feitas na esquina! Quem tem um grande cão de briga, que lhe rende gordos dividendos em apostas, o tem muito bem escondido. São cães que, não raro, valem mais de US$20.000,00 e portanto não ficam expostos.

As rinhas não vão acabar com a proibição do pit bull. Primeiro, porque é difícil provar que um cachorro é um pit bull. Segundo porque qualquer cachorro briga. Com o pit bull, é apenas mais fácil, pois não precisa dar motivo. Na minha opinião, as rinhas vão aumentar com a proibição do pit bull. Ao invés de duas rinhas de duas horas, vão ocorrer várias de 10 minutos com outros cachorros. E, fora o pit bull, existem pelo menos 6 raças adequadas para rinhas que não são criadas no Brasil. Rinhas são um ato de catarse coletiva. Pessoas insuspeitas dão vazão à sua agressividade ali. Elas não vão deixar de promover rinhas porque proibiram uma raça de cachorro. Vão fazer com outra. Tudo é muito simples: cadeia para quem rinha, ketamina para quem morde. Lei para isso já está disponível.


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