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Cães de guarda que não guardam!

Por Claudia Pizzolatto


Este não é o primeiro artigo do Lord Cão News a falar de cães de guarda. A primeira vez que abordamos este assunto queríamos chamar a atenção das pessoas que possuem, ou que gostariam de possuir um cão de guarda, para as suas responsabilidades e da importância de sociabilizar bastante o filhote e não deixá-lo trancado durante o dia todo, sem contato com as pessoas.

Desta vez vamos tentar responder as dúvidas de uma série de amantes caninos que compram seus filhotes e querem que eles se tornem um cão de guarda de imediato.

Mensagens como:
"Eu tenho um rott de 4 meses mas ele é muito brincalhão, o que faço para ele ficar bravo?", ou
"Meu Pit Bull de 1 ano brinca com todo mundo e não avança em ninguém, será que ele não vai ser cão de guarda?", ou ainda
"Como fazer para um Pastor Alemão me proteger e atacar toda vez que eu mandar?", são bastante comuns e no meu ponto de vista, bastante preocupantes.

Calma pessoal!

Bom, como diria o esquartejador: Vamos por partes (oops, acho que esta expressão fica um pouco forte num artigo sobre cães de guarda!). Pra começar é preciso definir aqui o que é que estamos falando sobre o trabalho de guarda. Você pode estar querendo apenas um cachorro que dê alarme, latindo quando qualquer pessoa estranha chegar até o seu portão, ou se aproximar do seu carro, certo? Para isto basta você ter um pequeno cão Terrier, como por exemplo um Schnauzer, um Fox Terrier, um Terrier Brasileiro, ou até mesmo um Poodle. Estes pequenos dão conta do trabalho e muitos são capazes de dar uma bela mordida no braço de algum incauto que tente lhe entregar um destes folhetos chatos no sinal de trânsito. Um pouquinho de estímulo para o cachorrinho latir na hora certa e um cafuné quando o trabalho de espantar as pessoas indesejáveis for bem executado, e você terá o seu guarda de bolso pronto. Ah! Um aviso importante é treinar o bichinho para ficar quieto quando o dono mandar e também que ele não tenha dúvidas de que não é permitido morder as visitas que vêem a nossa casa, caso contrário, ao invés de ter um pequeno cão de alarme você vai é acabar tendo um cachorro que não para de latir e que vai deixar seus vizinhos loucos, e conseqüentemente vai deixar você louco também.

Mesmos os pequenos cães de alarme precisam de sociabilização e de treinamento de obediência para não deixar que seu espírito de pequeno cão de guarda se torne um grande problema de barulho e agressividade.

Uma outra possibilidade é a pessoa que quer um cachorro maior, com a aparência mais robusta e assustadora, mas que não deseja que o cachorro morda ninguém, apenas faça cara feia para quem passa na calçada. Neste caso você pode ter um Boxer, um Bernese, um Rottweiler, ou um Pastor Alemão que seja bem mansinho (sim, existem Rotts e Pastores mansos), um Bull Terrier que todo mundo pensa que é um Pit Bull e já morre de medo a priori. Neste caso é importante que o cão não seja estimulado a ter um comportamento mais agressivo. Mais uma vez a sociabilização e um bom treinamento de obediência básica farão muito bem ao peludo. É importante escolher com cuidado o filhote, e ter certeza de que o criador entendeu bem as suas expectativas sobre o peludo em particular, ou seja, que ele tenha uma cara feia, mas que seja manso e não tímido, ou medroso.

Agora nós vamos nos aprofundar um pouco mais sobre aqueles que desejam ter um "verdadeiro" cão de guarda. Daqueles que aparecem nos filmes, e nas ações policiais. Que é tranqüilo e seguro no dia-a-dia, mas que atacará ferozmente ao comando de seu dono. Não é isso que a maioria das pessoas gostaria de ter?

Mas este cachorro existe? É só comprar um cachorrão, um Fila, por exemplo, para ele ser o nosso fiel escudeiro? Com apenas 6 meses de idade ele já será um cão de guarda?

A primeira coisa a saber para quem quer um cão de guarda é (a pergunta parece idiota, mas você nem tem idéia de quantas pessoas não se preocupam com isso!):

A raça escolhida é naturalmente um cão de guarda? Se a resposta for SIM, significa que já estamos no caminho certo e que provavelmente o instinto natural de guarda do bichinho irá trabalhar a nosso favor. Se a resposta for NÃO, é melhor deixar pra lá à vontade de ter um cão de guarda até você ter condições de comprar um novo cão, desta vez de uma raça adequada.

Veja bem, não estou dizendo que não é possível treinar um Labrador para atacar as pessoas. Possível é, mas esta raça não foi escolhida, desenvolvida, e criada para este trabalho e portanto o resultado não será exatamente o ideal. Muito provavelmente o Labrador treinado para guarda irá se tornar um cachorro instável, difícil de controlar e agressivo com qualquer pessoa.

Por outro lado se você escolhe um Rottweiler para fazer o trabalho de guarda (tomando-se todas as outras precauções necessárias que vamos citar mais adiante), irá perceber rapidamente como o treinamento flui com facilidade, e que o Rott bem treinado é um cachorro tranqüilo e pouco reativo (não late a toa, não fica avançando nas pessoas sem motivo) e, apesar de ser reservado com estranhos, ele não é agressivo e é muito carinhoso com pessoas da família e conhecidos. Normalmente as raças que fazem, ou já fizeram pastoreio e guarda de rebanho no passado, são excelentes cães de guarda.

Como exemplo de raças que fazem naturalmente a guarda de seus donos e de sua propriedade temos o Rottweiler (antigo boiadeiro), o Pastor Alemão, o Boiadeiro de Flandres, Akita, Pastor Belga, o Boxer (embora muitos cães desta raça hoje em dia estejam sendo selecionados apenas como companheiros), Doberman, Fila Brasileiro, Mastife Inglês, Mastim Napolitano. Vale reforçar que estamos falando aqui de instintos naturais para guarda e proteção, ou seja, se o cão estiver dentro do padrão correto de temperamento da raça, ele será instintivamente mais atento a movimentos estranhos perto de seu dono ou de seu território. Isso não quer dizer que o bichão irá se tornar sozinho um super guardião, ou bancar um RinTinTin na vida real.

Não são raças de guarda: o Labrador; Golden Retriever, Husky Siberiano; PitBull (sim, o Pit Bull e o Bull Terrier não são cães de guarda, eles são cães de rinha, de briga com outros animais, mas não deveriam ser agressivos com humanos, apesar de serem territoriais), Dálmata, Weimaraner, Chow-Chow, Shar-Pei. Nestes casos o treinamento, ou mesmo o incentivo para que estes cães se tornem cães de guarda, podem acabar em desastre. Estas raças, quando incitadas para atacar pessoas, podem facilmente sair fora do controle de seus donos, e podem se tornar cães de difícil convívio.

Provavelmente alguns de vocês devem estar pensando: "Mas eu conheci um cocker spaniel que era um excelente cão de guarda e ele até atacou um ladrão que entrou na casa da prima da avó da amiga da minha tia!!!" Ou coisa parecida.

O que eu quero chamar atenção aqui é que não estamos pensando num caso do acaso. Estamos falando de treinamento sério, de cão que ataca um outro ser vivo sob o comando de seu "Mestre". Estamos buscando a genética correta que nos dará a melhor chance de encontrar um animal/indivíduo para desenvolver um trabalho importante e preciso. Por que não usar centenas de anos de aprimoramento de uma raça a nosso favor? Porque é isso que um bom criador pode nos oferecer. Uma raça bem desenvolvida, com linhagens conhecidas e reconhecidas por passar não só um padrão exemplar de conformação (trocando em miúdos um cachorro muito do bonitão e próximo da perfeição quanto a sua aparência) como também um padrão exemplar de temperamento.

Você sabia que existem linhagens selecionadas justamente pela sua capacidade de trabalho? No caso de Pastores Alemães e Rottweilers, por exemplo, existem clubes de criadores que fazem um trabalho notável de aprimoramento do temperamento destes bichões, e inclusive promovem competições de prova de trabalho, onde as aptidões do cachorro em obediência, faro e guarda são testadas. Existem verdadeiros clãs de cães campeões nestas provas. Uma beleza!

Mas vamos falar um pouquinho sobre o que é preciso estar atento para se ter um bom cão de guarda.

Vamos supor que você já tenha escolhido uma raça adequada para o trabalho, certo? O que precisamos saber agora?

Você também já conversou bastante com um criador dedicado, que lhe orientou muito bem sobre as necessidades específicas da raça, como alimentação, treinamento, exercícios, etc. Você também já está disposto a pagar o preço justo por um filhote tão bem selecionado, cujos pais estão livres de displasia E POSSUEM O LAUDO VETERINÁRIO ATESTANDO ISSO (pelo amor de Deus não caia na velha conversa de: "Eu não preciso do laudo, pois crio há 200 anos e os meus cachorros nunca tiveram nada!"), e também já tiveram seu temperamento testado, tendo inclusive você mesmo constatado que os pais são bastante equilibrados na presença do criador quando você foi ver o filhote, certo? Você já está sabendo que é muito importante deixar o filhote na companhia das mães e dos irmãos até ele completar pelo menos 50 dias (claro que você já leu todos os nossos Lord Cão News anteriores!).

Então o próximo passo é: O SEU filhote tem o temperamento correto? Se o seu filhote é muito medroso, ou até mesmo tímido, é melhor deixar o trabalho de guarda para outro cão.

Existem dois fatores principais para um filhote ter um temperamento tímido, medroso, ou arredio. Um é a genética do filhote, e quanto a isso não há nada o que se fazer. Por mais que trabalhemos para tornar calmo e equilibrado um filhote que é tímido ou medroso, ele nunca será inteiramente confiável. Exercícios de dessensibilização, exposição controlada, sociabilização intensa, e treinamento de obediência irão ajudar este filhote a conviver de forma mais harmoniosa com o mundo que o cerca e ele pode até se comportar muito bem no dia-a-dia, mas em uma situação de pressão extrema como é a guarda de uma residência ou de uma pessoa, durante um ataque real, a coisa pode ficar preta e aí não dá para contar com um cachorro que não tem a genética para isso.

Acompanhe atentamente o comportamento do seu filhote quando é exposto a novas situações. Se você estiver em dúvida procure um profissional bem qualificado e peça a opinião dele. Respeite esta opinião se ele lhe disser que o seu filhote não tem o temperamento correto para o trabalho de guarda.

Alguns testes de temperamento podem ser feitos quando o bichinho tem apenas 49 dias de vida (na verdade esta é a época ideal para avaliar a tendência genética de comportamento de um filhote, já que ele ainda não recebeu influências significativas do meio ambiente em que ele vive). Embora o teste de Volhard (o mais conhecido e mais bem aceito entre treinadores e comportamentalistas) seja de fácil aplicação, é preciso ter muito cuidado para fazer uma avaliação correta dos resultados. Na verdade uma boa avaliação do filhote pode ser bem mais complexa do que muitas pessoas pensam. Outros testes podem ser aplicados ao longo da vida do filhote, mas quanto mais tempo passa mais cuidado precisamos ter na hora da avaliação de peludinho, pois além do temperamento nato, ele já terá aprendido muita coisa por conviver com o dono e sua família e as experiências positivas ou negativas contam.

Se a genética é um dos fatores que determinam se o seu filhote é medroso ou tímido, o outro fator é justamente o meio ambiente e as experiências que o filhote vivência. Você já está sabendo que existem pelo menos dois períodos críticos na vida do filhote onde ele pode ser facilmente assustado e traumatizado, não é? (claro que você já leu todos os nossos Lord Cão News anteriores!). O primeiro ocorre por volta da 7a até a 11a semana de vida, e o segundo por volta dos 8 meses de vida. Lembrando que estas fases não são "marcadas" no calendário. Elas variam de filhote para filhote, bem como a sua intensidade. Se o profissional qualificado para avaliar o seu filhote suspeita que o problema de medo não é genético e sim de trauma é preciso determinar se o processo pode ou não ser revertido.

Se o seu filhote passou a apresentar um comportamento assustado há pouco tempo e que não coincide com o período do medo, é bem provável que ele irá superar esta fase rapidamente, principalmente se forem aplicados exercícios de dessensibilização, aliados a jogos e treinamento que reforcem a autoconfiança do peludo. Se tudo correr bem, peça para o seu treinador reavaliar o seu bichão alguns meses mais tarde para ter certeza de que está tudo ok mesmo.

Se o seu peludo já apresenta um comportamento arredio e medroso há mais de 2 meses e não parece estar melhorando nada com os jogos e com os exercícios de obediência básica, é muito provável que ele tenha sido traumatizado no período do medo, e dificilmente ele irá se recuperar totalmente. Neste caso o melhor é fazer o mesmo que recomendamos com o filhote que tem problemas genéticos, ou seja, ame-o muito, mas não coloque o cachorro para defender você e sua família.

Além do problema de medo e timidez, existem dois outros bastante comuns e preocupantes para os donos que querem um cão de guarda. O primeiro, e que parece ser o que mais preocupa os donos, por incrível que pareça, é o filhote ser "muito manso".

Se o seu filhote parece muito manso para o trabalho, procure levar em consideração primeiro os seguintes pontos: Seu filhote não tem obrigação de entender o que você espera dele. Ele não precisa ser uma fera para ser um bom cão de guarda (veja novamente o nosso primeiro artigo sobre cães de guarda). Além disso a maioria das pessoas que escrevem perguntando sobre a "mansidão" do filhotinho, fala que ele tem apenas 4 meses de idade. Às vezes 1 ano. Ainda assim é muito cedo para a maioria das raças de grande porte estar amadurecida e demonstrar realmente o seu potencial como guardião. Eu não espero que um filhote demonstre preocupações extremas com estranhos antes deles completarem 1 ano e meio, talvez 2 anos de idade. É nesta idade que a maioria dos cães de raças grandes começam a sair da adolescência e passam a se tornar mais "sérios", mais reservados com estranhos. Existem filhotes que são "bravinhos" muito antes disso? Existem, e nós ainda vamos abordar este aspecto, mas o seu filhote não é necessariamente um "Jamanta" só porque ele ainda faz festinha para os conhecidos, e para os não tão conhecidos, se ele ainda não completou 2 anos de idade.

O melhor mesmo, enquanto o tempo não passa, é investir em sociabilização e muiiiiiiiiiito treinamento de obediência, básica e avançada. Além de você precisar destes dois requisitos lá na frente, você vai ter muito mais intimidade e conhecimento das reações do seu peludo, e um bom treinador irá lhe orientando sobre as potencialidades do bichão, e como você pode brincar para ir estimulando o equilíbrio do temperamento dele, a curiosidade e o instinto natural perseguir coisas.

Uma brincadeira normalmente proibida, mas que pode ser muito útil no caso de quem quer um cão de guarda, é o cabo-de-guerra. Se você tem um cão "muito manso" brinque de cabo de guerra com ele. Às vezes deixando que ele leve o brinquedo, às vezes você ficando com ele. Brinque também de esconde-esconde. Ensine o seu cão a ficar atento a sons e cheiros, e ir procurar a pessoa escondida quando você mandar. Deixe o filhote brincar de perseguir um paninho amarrado numa cordinha e arrastado por você pelo chão.

Se alguém desconhecido ficar muito perto do seu portão, e o seu filhote começar a latir, não o repreenda imediatamente. Deixe-o latir um pouquinho, depois vá até ele, faça um carinho discreto e chame-o para junto de você. Deixe o filhote saber que você gosta de um pouquinho de ação e que latidos para estranhos são apreciados. Só não esqueça de também ensiná-lo a calar a boca quando você manda.

Umas regrinhas que funcionam maravilhosamente na minha casa, considerando que temos basicamente 3 situações chaves com pessoas que vêm a minha casa são:

• A primeira situação é quando chega algum conhecido nosso. Eu deixo primeiro a minha Rottweiler ir até o portão e investigar a pessoa que está do lado de fora. Normalmente ela começa a encarar a pessoa que está do lado de fora e começa a andar de um lado para o outro. Se a pessoa for um velho amigo da família, e dela também, minha Rott caminha descontraída e alegre. Então eu a chamo para junto de mim e seguro levemente a coleira que está sempre no pescoço dela. Peço para a pessoa entrar, e quando o amigo já está cerca de uns três passos dentro do meu terreno, libero minha "pequena peludinha preto e canela" para ir até a pessoa, receber carinho (se assim a minha cadela desejar), cheirar e acompanhar o amigo até onde eu estou. A partir daí a minha Rott não se preocupa mais e deixa a pessoa passear livremente pela minha casa. Se for alguém que ela conhece e gosta, a safada vai logo se encostando para ganhar carinho e deita feliz da vida nos pés da pessoa.

• A segunda situação é quando tem alguém estranho no meu portão, que não vai entrar na minha casa, mas que eu já identifiquei que não há perigo e não quero que a minha Rott fique muito perto. Por exemplo quanto o carteiro chega, o medidor da luz, ou alguém que está esperando o vizinho. Neste caso eu deixo a Dharma (nome da minha lindinha, quase um chihuahua preto e canela) fazer a primeira ronda de reconhecimento dela no portão. Mais uma vez ela anda de um lado ao outro, mas desta vez é possível notar que ela fica muito mais tensa e com a postura toda projetada para frente. Eu a chamo para junto de mim, faço um monte de festinha , e mando que ela fique vigiando. O que acontece agora é que a minha pretinha não fica junto do portão, mas também não se afasta totalmente e fica de olho do estranho. Qualquer movimento mais ousado em direção a nossa propriedade e a Dharma começa a latir, chamando a nossa atenção, e só para quando a pessoa se afasta ou se nós mandarmos ela ficar quieta.

• Finalmente o terceiro caso que é quando tem alguém que eu realmente não conheço, que por um motivo ou por outro fica rondando o meu portão. Neste caso eu nem chamo a minha Rott e deixo que ela fique realmente acompanhando os movimentos do cidadão. Não demora muito até a Dharma ficar mais agitada e passar a latir para a pessoa. Também não demora muito para a pessoa mudar de calçada ou ir embora J. No caso da Dharma, não houve nenhum treinamento de ataque ou guarda. Estamos apenas usando os instintos naturais dela e estamos dando algumas "dicas/códigos" para ela entender qual é o tipo de reação que esperamos dela em situações específicas. A Dharma é trabalhada por nós apenas como um cão de alarme.

Posso dizer com segurança que ela é e sempre foi mansa, e nem por isso ela está incapacitada para fazer o trabalho de alarme, ou até mesmo vir a ser treinada para defender e atacar se assim nós desejássemos.

Bom, mas existem aqueles cachorros que já estão com 2 anos ou mais de idade e nem assim apresentam nenhuma das características desejadas num cão de guarda. O bichão continua adorando todo mundo, estranho ou não, só quer saber de boa comida e boa cama, e nem com todo estímulo do mundo ele parece ligar se tem alguém tentando entrar no território dele. Neste caso eu vou recomendar mais uma vez que o seu peludo seja avaliado por um profissional experiente e gabaritado. Se o conselho for deixar o peludo ser só um cão de família, e deixar o trabalho de guarda para outro cão, que assim seja. Na verdade você pode pensar em pegar um outro cachorro, um terrier por exemplo, e deixar que o pequeno seja o barulhento e ativo no patrulhamento do território, enquanto que o grandão fica com o papel só de fazer cara feia e impressionar um possível invasor. Treinar para guarda um cachorro que não tem temperamento para perseguir um bandido (o que muitos treinadores chamam de "Drive") ou para tomar conta do seu território, pode ser impossível, ou pode também dar a maior cáca!

O outro problema de falha no temperamento (e este me preocupa muito mais) é o filhote ser muito agressivo. Aí a coisa pega, pois ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, um cachorro bravo e com comportamento agressivo desde muito cedo, dificilmente será um bom cão de guarda, principalmente na mão de um dono mediano. A agressividade está na sua grande maioria das vezes relacionada com um alto grau de dominância do peludo.

Cachorros dominantes não costumam aceitar com facilidade a liderança de um ser humano que não tenha experiência para lidar com um bichão tão assertivo. Muito menos de um dono, ou de uma família meio mole. Do tipo que acha tudo coitadinho, que o filhotinho não é agressivo, ele só não gosta de ser contrariado, ou de dono/membro da família que não tempo para se dedicar ao treinamento da ferinha, não tem disciplina e não saber impor limites, e pior, tem medo de cachorro grande, que pode morder.

Neste caso, mais do que nunca o cachorro vai precisar de muita socialização e de treinamento. A ajuda de um profissional é imperativa para determinar se este cachorro pode ou não ser treinado e incentivado para ser um cão de guarda. Muito cachorro "trombadinha" até se beneficia do treinamento de guarda, pois aprende a direcionar a sua vontade de morder tudo que passa por perto, e principalmente aprende a ter controle desta vontade. Aprende que tem hora pra tudo, até para "brincar" de morder. Mas está não é a solução para todos os casos de cães agressivos, e muito menos para qualquer dono de cão agressivo.

Aliás este é o caso de muitos dos cães e filhos de cães campeões em prova de trabalho (lembra que a gente já falou isso lá em cima?). Um filhote deste tipo de linhagem, se bem conduzido, não se torna agressivo, mas tem um temperamento bastante "esquentado". Nas mãos erradas, o sonho de ter um cachorro FILHO DE CAMPEÃO CG3, e mais tudo o que tem direito de título, pode acabar num cachorro intimidador, indisciplinado, e perigoso para quem resolver ficar no caminho dele. Acha que é fácil tirar um quilo de filé mingnon roubado da cozinha, no dia em que a sogrona veio para o almoço, da boca de um cachorro que tem 45 quilos e que mostra até o terceiro molar quando alguém chega perto do filé DELE? Porque se você não consegue fazer isso, você acha que vai conseguir fazer este mesmo cachorro parar, no grito, um movimento de "ataque", no meio de uma ação, que é na verdade um grande engano????

Cão de trabalho não é pra qualquer um!!!!!

Ok, vamos continuar no nosso mundo de suposições e você agora já sabe que tem um cachorro com o temperamento muito legal. O cão não é agitado demais, nem paradão demais. Não é "galinhão" de ficar falando com todo mundo que não conhece, mas também não fica mostrando os dentes como se todo ser humano fosse dentista canino. Não é medroso, é curioso, não late à toa, tem um certo "q" de reservado. Tem a saúde perfeita. Uma maravilha, certo?

Então vamos repassar quais são as etapas importantes para que você consiga ter o tão sonhado cão de guarda:

• sociabilizar o filhote, observando as idades mais importantes no desenvolvimento emocional do bichão;

• promover o contato dele com vários tipos de pessoas, lugares, sons, tipos de solo, até ele completar pelo menos 1 ano de idade;

• estimular a curiosidade do bichão, incentivando-o a chegar perto de coisas novas;

• não estimular agressividade no filhote;

• brincar jogos que contribuam para o aumento da autoconfiança do filhote e o uso de seus instintos naturais de capturar presas (p.ex. esconde-esconde, cabo-de-guerra, perseguir um paninho), mas sempre com total controle da brincadeira, inclusive com o comando "Larga" ou "Chega";

• treinar com seriedade todos os comandos de obediência, sempre acompanhando o treinador, nos níveis básico, intermediário e avançado, envolvendo toda a sua família neste processo. (Nunca é demais lembrar que quanto antes se começa o treinamento do filhote, mais fácil é para vocês dois aprenderem). Uma outra boa dica se você tiver um pouco mais de tempo é treinar seu bichão para "brincar" de agility. Não precisa praticar este esporte de forma competitiva, mas superar os obstáculos e a sua participação na condução do peludão irão ajuda-los a se entenderem ainda mais, estimulando imensamente o autocontrole e a autoconfiança do cão;

Se até aqui foi tudo bem e o seu filhote já tem perto de 1 ano e meio de idade, então é hora de procurar um profissional muito bem recomendado para ter certeza de que seu filhotão está pronto para começar a brincar de mocinho e bandido.

• Peça referências de outras pessoas que já trabalharam com este treinador e não tenha vergonha de checar as impressões dos antigos clientes. Você não vai querer parar o treinamento no meio porque o treinador não aparece mais, ou ficar com um cachorro "engatilhado", mas meio fora de controle porque o treinador não sabia exatamente como resolver um problema especifico do seu cão. Também por causa disso é bom ter uma idéia de quanto irá custar todo o treinamento (prepare cuidadosamente o seu orçamento), e quais serão as etapas e metas a serem cumpridas.

• Esteja preparado para estar presente em todas as aulas (não deixe o seu cachorro ficar internado para fazer o treinamento), para treinar os comandos de obediência diariamente, e seguir as orientações do treinador. Nunca pense em treinar comandos de ataque/defesa em casa, com seus familiares, e sem o acompanhamento de um profissional (pode parecer loucura, mas eu conheci um cara que mandava o filho correr e soltava o cachorro para perseguir o menino!!!!). Também não incentive o seu cachorro a perseguir gatos de rua, puxar briga com outros cães, ou ficar rosnando para pessoas estranhas que não estão ameaçando você ou ao seu cão.

• Prepare-se para manter o peludão treinado pro resto da vida, praticando sempre os comandos de obediência e pedindo uma avaliação do seu treinador pelo menos a cada 6 meses.

É muito importante que nós entendamos que é preciso ser muito responsável quando se tem um cão. Muito mais ainda se este cão é de grande porte, e infinitamente mais responsável se optamos treinar o nosso bichão para fazer guarda.

É sua responsabilidade manter o cão em um local seguro para ele e para as outras pessoas. Muros altos o suficiente para que o seu cão não possa pular para fora, grades pela qual uma criança pequena não será capaz de colocar a mão, placas que avisam que existe um cão treinado para guarda dentro da casa (não adianta ter só uma plaquinha escondida, principalmente se o seu terreno é grande). Manter o seu cão sempre sob controle e não deixá-lo sem supervisão perto de pessoas que estão temporariamente na sua casa (entregadores, pessoal de conserto, vistas), são responsabilidades das quais não podemos esquecer um só minuto.

Também esteja muito atento para ensinar o seu cão a não sair da sua propriedade, de forma alguma, sem a sua autorização, mesmo o portão estando totalmente aberto. Aliás este é um fato notório: É supercomum receber pedidos de donos que estão preocupados com o treinamento antiveneno de seus cães, mas quase nenhum deles está preocupado em ensinar o cachorro à não sair pelo portão da garagem, ou pela porta da casa sem autorização! Será que a segurança do dono e a do seu cachorro está acima da segurança das pessoas que estão passando pela rua?

Digo ainda mais, tão importante quanto ser responsável com a nossa família, com o nosso cão e com as pessoas que nos cercam, é sermos responsáveis com a RAÇA de nossos cães.

Eu, por exemplo, que tenho uma Rottweiler me sinto responsável com todas as pessoas que lutam para fazer um trabalho sério e muitas vezes penoso com a sua criação, para provar as pessoas que a raça não é perigosa e agressiva quando está nas mãos de um dono cauteloso e responsável. Ter um Rottweiler me faz ser parte de todo um projeto para não deixar que as pessoas taxem nossos animais como bestas-feras-perigosas.

Não importa o quanto bem treinada e obediente é a minha pequena "bola-de-pêlos-preta-e-canela", nunca a deixo sem identificação, sem coleira, ou andando solta na rua. É meu dever não deixar que acidentes aconteçam. Por mim, por ela, pelas pessoas comuns, e por todos os criadores de raças que estão sob a ameaça constante de serem banidas.

Bom, é isso. Espero ter conseguido colocar todas as questões importantes para as pessoas que têm um filhotinho que será um possível cão de guarda. Tenham calma e planejem com cuidado e atenção todo a caminho a ser trilhado por vocês.


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