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Nem todo labrador serve para guia de pessoas cegas

Por Lúcia Andrade


A maioria das pessoas sonha em comprar aquele Labrador lindo, calminho, bonito e saudável dos filmes americanos. Porém quando compram o cachorrinho, o levam pra casa e ele começa a crescer, percebem que o sonho se tornou, para alguns, um pesadelo!

É verdade. Estamos cada vez mais recebendo alunos, telefonemas e e-mails de pessoas dizendo que não aguentam mais seus Labradores porque eles destroem tudo, não param quietos nunca, comem pra caramba, roubam sapatos, papel higiênico, meias, pedrinhas de jardim... e pasmem, estão mordendo a mão dos donos!!

É claro que tudo isso aí em cima poderia ser feito por um cachorro de qualquer raça, principalmente se ele for filhote, porém a questão é que as pessoas estão inconformadas com o resultado frustrante de suas expectativas exageradas com relação a uma raça específica. Muitas estão se sentindo enganadas e arrependidas por terem comprado um exemplar de Labrador.

Mas será que toda a culpa está no coitado do peludo? Acho que não. O Labrador é uma raça ótima, realmente amável, super carinhosa com outros bichos e com outras pessoas e um perfeito exemplar para trabalho. Formam uma ótima dupla com os caçadores de patos, pois após dado o tiro, eles vão até a caça, a pegam com a boca sem dar um sequer arranhãozinho na ave e a entregam ao caçador. Eles também atuam com extremo desempenho em funções mais modernas trabalhando como farejadores de drogas em aeroportos, salvando pessoas em escombros e no mar, sendo guia de cegos e ajudando pessoas com Esclerose Múltipla e outras deficiências físicas ou motoras.

Então você deve estar pensando: “O que está acontecendo com o meu Labrador?”.

Muitas pessoas não entendem que não são todos os Labradores que são guias de cego. Não é só porque o peludo nasceu Labrador que ele agora será um ótimo cão trabalhador, um perfeito cão de salvamento. Para que alguns poucos cães Labradores se tornem guias é feito um rigoroso trabalho de seleção e um profundo treinamento.

Para se ter uma idéia do que é esse trabalho, durante o primeiro ano de vida do cão, já pré-selecionado para ser um possível cão-guia, já que seus pais, avós, bisavós, foram também guias, ele vive com uma família voluntária que o leva para todos os cantos da cidade. A família o leva desde pequeno para restaurantes, cinemas, lojas, padarias, açougues, parques, todo o lugar que você puder imaginar. Além disso, durante este tempo todo esta família se compromete em treinar o filhote com extrema disciplina nos comandos básicos de obediência.

Depois de um ano é que começa o treinamento de guia propriamente dito. Isso caso ele seja aprovado. Com mais ou menos um ano, a família entrega o cão de volta para o centro de treinamento para ele começar a aprender os comandos para ser um guia. Lá ele fica uns outros três meses junto aos professores. Depois disso é que entra o treinamento intenso de um mês com a pessoa que o terá como guia, e mesmo assim não é qualquer cachorro que se adapta a qualquer dono. São várias etapas e um longo caminho para o cão se tornar um guia de cego. A cada etapa ele poderá falhar e ser retirado do programa. É muito mais fácil ele ser reprovado do que aprovado. Portanto é praticamente impossível que aquele Labrador do seu vizinho que você está pensando em comprar seja um dia um cão calminho e tranquilo que nem os guias de cego. É mais ou menos assim, quantas crianças superdotadas você já conheceu na vida? Quantos gênios você já viu em pessoa?

Está pensando nos Labradoes farejadores de drogas e de busca e salvamento? Estes são ainda mais especiais. São justamente os Labs que ninguém quer, que são super agitados, que querem fazer “coisas” o dia inteiro, que não param quietos um minuto, que são destrutivos se deixados sozinhos, obstinados, focados e teimosos quando querem um brinquedo, os pré-selecionados para fazer um trabalho tão preciso e de tanta valia para os humanos. Justamente aqueles que um mortal qualquer não quer nem ver por perto que, se treinados e trabalhados adequadamente, se tornam maravilhosos. O “truque” aqui é trabalho, trabalho, trabalho...

Agora falando dos Labradores americanos que são pets. Lá a maioria é castrada e mora em casas com quintal e muito espaço. Lá os americanos levam os cães aos parques, viajam com os cães e os exercitam muito. O cão faz parte da rotina da família e existe uma preocupação grande em preservar o temperamento do Labrador e em extinguir a displasia. É claro, que aqui no Brasil, também existem criadores e donos sérios, mas a grande maioria não está tão ciente de tudo isso.

Infelizmente a raça Labrador alcançou um nível de comercialização muito grande. Provavelmente em breve, ela será uma das raças mais vendidas do Brasil, desbancando outras raças tradicionalmente adquiridas como cão de companhia. Como todo mundo quer um, tem muita gente virando criador e vendendo filhotes totalmente fora do padrão. Sem contar com o pior que é vender só para ganhar dinheiro, sem explicar nada sobre as características do peludo para o futuro dono, sem se importar se o cão, ou a raça é adequada paras o ritmo de vida do novo dono. Com isso chegamos a um ponto que a própria raça sai perdendo. As pessoas, sonhando com aquele cão lindo nadando nas águas gélidas do Colorado, compram o bicho e o leva pra casa. Já que temos uma vida agitada, acabamos nos esquecendo de levá-lo de vez em quando para nadar. Esquecemos que ele precisa se exercitar três vezes por dia por no mínimo 40 minutos. Esquecemos que ele, se deixarmos, come o pacote inteiro de ração de uma vez só.

Vejo nas ruas Labradores obesos. É uma pena. Os Labradores sofrem muito com isso. São comilões sim, mas somos nós donos que os alimentamos. Não devemos permitir que isso aconteça. Para piorar, é cada vez mais alto o número de cães com displasia coxo-femural. Se o seu cão tem essa doença, NÃO O DEIXE cruzar. Temos que fazer a nossa parte. Já que chegamos a um ponto tão comercial, não podemos fazer vista grossa para essa doença. Imaginem 12 filhotinhos displásicos, cheios de dor... Não há necessidade disso. Evitar este mal é mais simples do que parece, basta radiografar seu cão com um veterinário especializado após um ano de idade e não cruzá-lo se for portador da doença. Da mesma forma, só compre um filhote se ambos os pais forem radiografados e possuírem o laudo atestando a ausência de displasia. Por mais que alguns “jurem” que seu cão não tem nada e que “vários” veterinários disseram que ele não tem nada, somente o laudo radiológico é capaz de detectar a doença.

Amo a raça Labrador. A propósito tenho dois. Optei por comprar essa raça, pois morei nos Estados Unidos cinco anos, e tive, como muitos, a ilusão de que todos os Labradores eram como os cães americanos. Mas aqui no Brasil o controle da raça ainda não é tão sério assim. A minha fêmea, a Julie, é chocolate, tem três anos e é castrada, pois tem displasia grau moderado. Como poderia imaginar que ela tinha essa doença quando a comprei? Impossível. Mas graças a Deus sempre tive a preocupação que um dia isso poderia acontecer. Até agora ela não apresenta nenhum sinal da doença. Mas isso é devido a minha força de vontade. Levo-a sempre para nadar, ela nunca corre no asfalto ou em chão escorregadio e a mantenho no peso ideal.

Foi muito difícil criar a Julie. Morava num apartamento pequeno, estudava e trabalhava o dia todo. É claro que ela destruiu todo o sofá, as paredes, os fios de telefone... Mesmo assim, todo dia de manhã e a noite a levava para longas caminhadas.

Anos mais tarde comprei outro Labrador, o Freddy. Ele é preto e está com um ano e meio. Muito mais bagunceiro que a Julie. Impossível manter a sanidade mental com os dois dentro de um apartamento. Mesmo eles saindo três vezes por dia durante 40 minutos, eles sentem a necessidade de ter um espaço maior. Toda hora eles vem com um brinquedo na boca para eu jogar, para eu correr atrás deles. É muito difícil. Resolvi que seria melhor para todos nós que eles fossem de 15 em 15 dias para minha casa de praia. Lá tem muito espaço e eles ficam em contato com a água o tempo todo.

Percebo todo dia sinais de estresse e tédio quando eles ficam muito tempo sem ir para a praia. Eles ficam muito mais ansiosos, pulando sem parar, pegando coisas nas latas de lixo e em cima da mesa, lambendo as patas sem parar. É muito triste.

Sempre que penso em Labradores me lembro de uma propaganda que passava na TV a cabo há pouco tempo. Era uma propaganda de uma marca de whisky e em linhas básicas era assim:

Uma mulher lindíssima, arrumada e perfumada espera pelo companheiro para jantar. Uma mesa romanticamente arrumada espera o casal. Ele chega, começam a se beijar e de repente toca o telefone celular dele. Ele dá mais um beijo na companheira e sai levando seu estetoscópio. Passam-se horas e horas. A mulher espera pacientemente tomando sua birita. Finalmente ele chega no meio da madrugada. Ela linda, loira, e compreensiva o beija e abraça (hahahaha). Aí entra em cena um lindo labrador preto, caminhando camalmente na direção dos donos, carregando a coleira na boca. Corta a cena e aparecem os donos passeando com o cachorro, o dia começando a amanhecer, todo mundo agasalhado, pois parece bem frio.

O que isso tem a ver com o nosso texto? A maioria das pessoas que assiste este comercial acha lindo o labrador, todo bonitinho e educado trazendo a coleira na boca, pedindo para passear. O que eu vejo quando assisto este comercial? Um Lab indo em direção aos donos, provavelmente pensando: “Não quero nem saber se o jantar michou, se a madame tá de pileque e o doutor tá morto de cansado por ter trabalhado a noite toda... VOCÊS VÃO TER QUE ME LEVAR PRA RUA AGORA!!!!!! Ah! E dane-se se tá o maior frio lá fora. EU GOSTO!!!!!”

Os Labradores precisam de espaço, precisam de água, precisam de estímulos físicos e mentais e não podem ser gordos. Morder a mão das pessoas então, nem pensar! São cães ativos, cujo propósito de suas vidas é trabalhar junto com os seus donos. Pense bem antes de comprar um Labrador. Depois pesquise muito sobre a raça e sobre os criadores. Depois deixe passar uns dias e repense. Dá muito trabalho ter um Labrador que esteja dentro do padrão, os que não estão então, são mais difíceis ainda. Caso você compre um, você terá um compromisso com a raça. Terá que mudar a rotina da sua vida, para dar o mínimo de conforto e saúde mental para o seu cão.


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